Museu Monforte Sacro
A igreja do Convento do Bom Jesus de Monforte, fundado cerca de 1517 e objecto de uma campanha de obras na primeira metade do séc. XVIII, possuía, exposto na grande nave coberta por uma abóbada de brutesco um notabilíssimo revestimento azulejar realizado cerca de 1746 na oficina lisboeta de Valentim de Almeida, importante pintor representativo do barroco joanino.
Quando da demolição da igreja em 1946, os azulejos foram retirados permanecendo encaixotados até ao início do processo de inventariação iniciado pela Câmara Municipal de Monforte em 2012.
Deste acervo faz parte um importante conjunto de dezasseis painéis historiados de grandes dimensões, delimitados por molduras imitando talha dourada, dispostos em dois níveis e suportados por pedestais da mesma época. Treze destes painéis narram episódios e milagres da vida da Rainha Santa Isabel conferindo uma particular singularidade a um programa iconográfico único na abundante imagética de temática isabelina. Caracteriza-se pela sua qualidade artística, pelo elevado número de composições narrativas, pela raridade das cenas retratadas e pela unidade e coerência do programa iconográfico.
Este revestimento azulejar que foi instalado na nave da igreja em 1749 sendo à época Abadessa do Mosteiro Soror Maria Baptista do Nascimento Barcane Leite, resultou da encomenda do Desembargador Plácido de Almeida Moutozo superintendente das minas de ouro e diamantes da Tijuca no Brasil, natural desta vila. A eles se deve provavelmente o programa iconográfico.
O programa está organizado em três grandes núcleos temáticos: episódios da vida da rainha D. Isabel, instalados na parede lateral do lado da Epístola, milagres e outras manifestações de santidade da rainha portuguesa, colocados na parede lateral do lado do Evangelho, e a glorificação da Rainha Santa exaltada na parede fundeira.
A sequência dos painéis não obedece a uma ordem cronológica. Baseia-se fundamentalmente na estrutura narrativa seguida na principal fonte textual, a primeira biografia da Rainha D. Isabel: Livro que fala da boa vida que fez a Rainha de Portugal, Dona Isabel, & dos bõos feitos & milagres em sa vida & depois da morte.
Disposição dos painéis historiados na nave da igreja:
- Parede do lado da Epístola - Conjunto de cinco painéis narrando episódios da vida da rainha D. Isabel:
- Intervenção pacificadora da Rainha D. Isabel no campo de batalha (“Recontro de Alvalade”), Chegada da Rainha D. Isabel ao desterro em Alenquer, Chegada do cortejo fúnebre da Rainha D. Isabel ao Mosteiro de Santa Clara em Coimbra, Peregrinação da Rainha D. Isabel a Santiago de Compostela, A Rainha D. Isabel observando os planos e obras do Mosteiro e dos Paços de Santa Clara.
Parede do lado do Evangelho - Conjunto de seis painéis celebrando milagres e outras manifestações de santidade da Rainha Santa Isabel:
- Morte da Rainha D. Isabel e aparição de Nossa Senhora (“A Senhora de Branco”), Lava-pés pascal e cura da mulher leprosa; As rainhas servindo as freiras de Santa Clara, Veneração do corpo da Rainha Santa e primeiros milagres junto do seu ataúde, Milagre das águas do Tejo que se apartam, Cura da freira do convento de Chelas, A “Santa Peregrina”.
Parede fundeira - Conjunto de cinco painéis que recordam dois milagres atribuídos à Rainha Santa Isabel e dois milagres semelhantes atribuídos a S. Francisco. O espaço central é ocupado com a representação da Ùltima Ceia:
- Milagre das rosas, Aparição de Cristo crucificado à Rainha Santa Isabel, Milagre dos espinhos ou Milagre das roseiras bravas, Estigmação de S. Francisco (S. Francisco recebendo os estigmas de Cristo crucificado), Última Ceia.
Ao decidir a reabilitação da Igreja do Espírito Santo para no seu interior proceder à recolocação do revestimento azulejar da Igreja do antigo Convento do Bom Jesus de Monforte, a Câmara Municipal, com apoio de uma equipa de investigadores que procederam à inventariação e ao estudo histórico-artístico deste acervo, encontrou a melhor forma de valorizar e dar nova vida a um notabilíssimo e singular património. Assim nasceu, com a feliz designação de “Monforte Sacro” um espaço de referência para a fruição pública, situado na antiga Igreja do Espírito Santo para o efeito restaurada, que contextualiza, de forma exemplar um património que renasce depois de mais de sete décadas de esquecimento.